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Vida de plástico

por doinconformismo, em 22.08.16

Vivemos no tempo do politicamente correto. Os pais de bebés que nascem hoje têm a vida muito mais facilitada pois sabem, à distância de um clique, quais são as fraldas mais eficazes, as pomadas, o que os bebés podem e não podem comer a cada semana, o que podem e não podem experimentar... Os bebés crescem e para cada idade há atividades, brincadeiras, objetivos de aquisição cognitiva desde a mais tenra idade. Está definido o que é suposto saber, fazer e até pensar em cada idade e se alguém se atreve a ser diferente arrisca-se a ser catalogado como necessitando de apoio para a normalização. A mesma coisa quando se anda na faculdade, quando se começa a trabalhar, quando se chega à meia idade...

Vivemos num tempo em que a ASAE persegue os vendedores das bolas de berlim e em que até o algodão doce está em risco por causa do pauzinho. Do pauzinho! Em que não podemos usar colheres de pau porque não são higiénicas, em que não podemos usar utensílios que não sejam devidamente certificados, inócuos. Tal como os comportamentos humanos, esterilizados, certificados, inócuos.

Tudo está tão definido e formatado que é cada vez mais difícil sair da norma sem dar nas vistas. E quando tal acontece rapidamente há alguém que tenta por todos os meios que a norma seja um padrão e sim uma lei. Inviolável. E assim vemos as redes sociais a acenderem-se de raiva quando alguém não cumpre a norma, real ou imposta à viva força. 

Quando alguém educa um filho de uma forma diferente ou com valores diferentes recebe imediatamente olhares de reprovação de quem está à volta. Basta apenas fazer horários diferentes. Basta até fazer horários diferentes no verão. 

E tudo o que as criancinhas comem tem que estar devidamente embalado, certificado, liofilizado... estamos a criar betos incapazes de se desenvencilharem sozinhos de tanta regrazinha e certificaçãozinha necessária. O mesmo se passa com os estudantes, seja qual for o seu grau: existe um código de conduta esperado e quem não se comporta de acordo com o mesmo, por mais aberrante que seja, é imediatamente catalogado como anormal. Daqui à generalização é um pulinho: se uma celebridade decide apoiar uma entidade de resgate de animais fora do país é atacada porque devia fazê-lo aqui, porque devia apoiar pessoas em vez de animais, porque devia preocupar-se com outra coisa. E a seleção portuguesa que teve uma prestação péssima no Europeu apesar de ter conquistado o título. E a comitiva olímpica portuguesa que foi decerto gastar uma pipa de massa à conta do contribuinte para participar em desportos desconhecidos durante três anos e onze meses, mas que decerto tinham que ter tido melhor prestação - mesmo que esta tivesse sido a segunda melhor de sempre.

E enquanto o povo anda de irritação em irritação, continua a esconder os olhos da sua vida de plástico em que o essencial desmoronou e apenas o acessório é embelezado e colocado em evidência. Começo a pensar que viver assim é uma arte, uma arte de plástico mas ainda assim, uma arte. Será que no fim da vida estas pessoas vão ficar felizes com o que fizeram dela e desta arte de plástico que desenvolveram? Pessoalmente, continuo a preferir outros materiais.

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